Créditos: Júlia Tótoli
Há reformas que transformam um imóvel. Outras reescrevem sua história sem apagar as páginas anteriores. Foi exatamente esse o desafio enfrentado pela artista plástica e designer Cecília Herculano, à frente do escritório Cecília Herculano Interiores, ao renovar um apartamento de aproximadamente 150 m², em Brasília, que há décadas pertence à mesma família.
Mais do que atualizar a planta, o projeto partiu de uma investigação sobre a memória afetiva construída naquele endereço. Antes do primeiro desenho, a profissional buscou compreender como os moradores viviam a casa e quais elementos deveriam permanecer como parte de sua identidade. O processo resultou em nove estudos de layout, até chegar a uma solução capaz de conciliar novas demandas com a estrutura existente.
Créditos: Júlia Tótoli
“O maior desafio não era modernizar o apartamento, mas preservar aquilo que nenhuma reforma consegue reconstruir: sua identidade”, afirma Cecília Herculano.
A partir dessa premissa, a arquitetura foi reorganizada para favorecer a convivência. A cozinha passou a ocupar uma posição central na residência, deixando de ser um ambiente exclusivamente funcional para assumir o papel de ponto de encontro da família. Os banheiros foram completamente redistribuídos, enquanto pilares estruturais foram incorporados ao desenho da marcenaria, criando uma leitura contínua dos espaços e uma circulação mais fluida.
O principal elo entre passado e presente, no entanto, está sob os pés. O piso original em parquet foi cuidadosamente restaurado e tornou-se a base da nova composição. Ao seu redor, madeira natural, pedras claras, tecidos de fibras naturais e painéis sob medida constroem uma atmosfera serena, onde a materialidade privilegia a permanência em vez de tendências passageiras. A iluminação, por sua vez, foi pensada como parte da arquitetura, valorizando texturas, obras de arte e a incidência da luz natural ao longo do dia.
Créditos: Júlia Tótoli
“Acredito que uma casa contemporânea não precisa abrir mão da sua história. Quando respeitamos a memória do lugar, criamos espaços que atravessam o tempo com naturalidade”, explica a designer.
Entre as peças de destaque está a mesa de centro Trellis, assinada pela designer Karoline Bortoluzzi, que dialoga com o parquet original em uma composição equilibrada entre tradição e contemporaneidade. Na área social, um conjunto de três obras de arte reforça a identidade do ambiente. A composição é formada pela gravura de Marcelo Solá, acompanhada por uma obra em tons de azul de Helena Lopes e outra em vermelho de Carlos Eduardo Zimmermann. Já o painel deslizante entre a cozinha e o living, aliado à marcenaria desenvolvida sob medida, revela soluções discretas que unem funcionalidade e sofisticação.
Créditos: Júlia Tótoli
O resultado é uma arquitetura contida, onde o protagonismo pertence às histórias de quem habita o espaço. Em vez de impor uma nova linguagem, o projeto demonstra que preservar a memória também pode ser uma forma de inovar.
Créditos: Júlia Tótoli
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