O Outubro Rosa é um convite à prevenção, ao diagnóstico precoce e à conscientização sobre o câncer de mama. Mas a campanha também abre espaço para falar de uma dimensão muitas vezes silenciosa da doença: as transformações físicas e emocionais que acompanham o tratamento e a importância de cuidar da mulher para além do diagnóstico.
De acordo com o Instituto Nacional de Câncer (INCA), o Brasil tem estimativa de 78.610 novos casos de câncer de mama por ano no triênio de 2026 a 2028. A doença corresponde a cerca de 30% dos casos novos de câncer entre mulheres, desconsiderados os tumores de pele não melanoma.
Em meio à rotina de consultas, exames, quimioterapia e radioterapia, a queda de cabelo e as alterações na pele podem representar desafios adicionais. Para muitas mulheres, ver os fios caírem ou perceber mudanças na própria aparência significa lidar com sentimentos que vão da insegurança à dificuldade de reconhecer a própria imagem.
A dermatologista Regina Buffman, chama a atenção para a necessidade de incluir a saúde capilar e cutânea no cuidado integral da paciente oncológica. “Durante o tratamento contra o câncer, a mulher passa por muitas mudanças em pouco tempo. A queda dos cabelos pode afetar profundamente a autoestima, porque os fios estão ligados à identidade e à maneira como ela se reconhece. É importante que essa mulher saiba que existem formas de acompanhamento e estratégias que podem ajudar a cuidar dos cabelos e da pele. Mais do que tratar os efeitos físicos, precisamos acolher os sentimentos que surgem nesse processo”, afirma a médica.
Queda de cabelo na quimioterapia: por que acontece?
A queda capilar provocada por determinados quimioterápicos é conhecida como alopecia induzida pela quimioterapia e pode ocorrer por um mecanismo chamado eflúvio anágeno. Nesse processo, os medicamentos interferem na atividade das células responsáveis pela formação e pelo crescimento dos fios, que se encontram em intensa multiplicação.
A intensidade da queda varia de acordo com os medicamentos utilizados, as doses e as características individuais de cada paciente. Em alguns casos, a perda é acentuada e começa nas primeiras semanas de tratamento.
Uma das alternativas disponíveis para determinadas pacientes é a crioterapia do couro cabeludo, realizada por meio de toucas de resfriamento. A técnica reduz a temperatura local e pode diminuir a exposição dos folículos pilosos aos quimioterápicos, ajudando a preservar parte dos cabelos.
Uma revisão sistemática publicada em 2021, que reuniu estudos com pacientes com câncer de mama, encontrou eficácia de aproximadamente 61% para os dispositivos de resfriamento capilar avaliados. O resultado varia conforme o tratamento e não significa que todas as pacientes terão o mesmo benefício.
“Quando a paciente recebe o diagnóstico e precisa iniciar a quimioterapia, é importante conversar sobre os possíveis efeitos do tratamento também nos cabelos. As toucas de resfriamento podem ser uma alternativa em situações específicas, mas precisam ser avaliadas com a equipe de oncologia. Ter acesso à informação permite que a mulher conheça as possibilidades e participe das decisões sobre o próprio cuidado”, explica Regina Buffman.
O cuidado capilar não termina com a quimioterapia
O fim do tratamento representa o início de uma nova fase de recuperação. Embora os cabelos frequentemente voltem a crescer, o tempo necessário para isso e as características dos novos fios variam entre as pacientes. Em algumas situações, a recuperação pode ser mais lenta ou a queda persistir, exigindo avaliação especializada.
É nesse momento que o dermatologista pode investigar as condições do couro cabeludo, avaliar possíveis deficiências nutricionais e identificar outros fatores que interferem no crescimento capilar. Quando necessário, exames complementares e tratamentos específicos podem ser indicados.
“A recuperação dos cabelos merece atenção mesmo depois que a quimioterapia termina. O acompanhamento dermatológico ajuda a entender como os fios estão crescendo e se existe algum fator que esteja dificultando essa recuperação. Vitaminas, suplementação e medicamentos estimuladores do crescimento podem ser considerados quando há indicação, mas precisam ser individualizados e avaliados em conjunto com a equipe que acompanha a paciente”, ressalta a especialista.
A suplementação não deve ser feita por conta própria. O uso de vitaminas sem necessidade comprovada pode não trazer benefícios, e os medicamentos para estimular o crescimento dos fios precisam ser avaliados considerando o histórico clínico e oncológico de cada mulher.
Além dos cabelos, a pele pode sofrer os efeitos do tratamento. A radioterapia pode causar vermelhidão, ressecamento, coceira, escurecimento e descamação na região irradiada. Em casos mais intensos, podem surgir bolhas e lesões que exigem avaliação e cuidados específicos.
A intensidade dessas reações depende de fatores como a área tratada, a dose de radiação e as características individuais da paciente. Por isso, o acompanhamento da equipe de radioterapia e, quando necessário, do dermatologista é fundamental para orientar os cuidados e evitar o agravamento das lesões.
“A pele também precisa de atenção durante o tratamento oncológico. Quando surgem ardência, irritação ou feridas, a paciente pode enfrentar dor e desconforto em um período que já é emocionalmente difícil. O acompanhamento adequado permite avaliar cada alteração e orientar os cuidados mais seguros, respeitando as necessidades de cada mulher”, destaca Regina.
A orientação é evitar produtos, pomadas ou receitas caseiras sem autorização da equipe responsável, especialmente na região irradiada. Lesões abertas, dor crescente, secreção ou piora importante da vermelhidão devem ser comunicadas aos profissionais de saúde.
Outubro Rosa: acolher também faz parte do tratamento
Falar sobre o câncer de mama é falar de prevenção, diagnóstico e tratamento, mas também de qualidade de vida. As mudanças físicas podem afetar a maneira como a mulher se relaciona com o próprio corpo, e suas preocupações com a aparência merecem ser ouvidas sem julgamentos.
O acompanhamento dermatológico não substitui o tratamento oncológico, mas pode contribuir para prevenir e manejar efeitos adversos, aliviar desconfortos e orientar a recuperação dos cabelos e da pele.
“Cada mulher vive o diagnóstico de uma maneira. Algumas sentem mais a perda dos cabelos; outras sofrem com as mudanças na pele ou com a dificuldade de se reconhecer diante do espelho. Não podemos dizer a uma paciente como ela deve se sentir. Precisamos escutar, orientar e oferecer cuidado para que ela atravesse esse momento com o apoio de que necessita”, afirma Regina Buffman.








